Um dragão em minha garagem

Uma das pacientes de John Mack afirma ter, por todo o corpo, cicatrizes que são totalmente desconcertantes para seus médicos. Como é que elas são? Oh, não podem ser mostradas; como na caça às bruxas, estão em partes íntimas. Mack considera essa afirmação uma evidência convincente. Ele viu as cicatrizes? Podemos ver fotografias delas tiradas por um médico cético? Mack diz conhecer um quadriplégico com marcas fundas, e considera esse fato uma reductio ad absurdum da posição cética; como ele pode produzir cicatrizes em si mesmo? O argumento só tem valor se o quadriplégico estiver hermeticamente trancado num quarto em que nenhum outro ser humano pode entrar. Podemos ver as suas cicatrizes? Um médico independente pode examiná-lo? Outra paciente de Mack diz que os alienígenas têm extraído óvulos seus desde que ela amadureceu sexualmente, e que seu sistema reprodutivo desconcerta o ginecologista. Será suficientemente desconcertante para se escrever sobre o caso e submeter o artigo de pesquisa ao The New England Journal of Medicine? Aparentemente não é tão desconcertante assim.E ainda temos o fato de que um de seus pacientes inventou toda a história, sem que Mack desconfiasse, como foi noticiado pela revista Time. Ele caiu como um patinho. Quais são os seus padrões de escrutínio crítico? Se ele se deixou enganar por um paciente, como podemos saber se isso não acontece com todos?

Mack fala sobre esses casos, os “fenômenos”, como se fizesse um desafio fundamental ao pensamento ocidental, à ciência, à própria lógica. Provavelmente, diz ele, as entidades que raptam não são seres alienígenas de nosso próprio Universo, mas visitantes de “outra dimensão”. Eis uma passagem típica e reveladora de seu livro:

“Quando os seqüestrados chamam a sua experiência de “sonhos”, o que acontece com freqüência, um interrogatório minucioso pode revelar que isso talvez seja um eufemismo para encobrir o que eles têm certeza de que não pode ser sonho, isto é, um acontecimento em outra dimensão do qual não há como despertar”.

Ora, a idéia de outras dimensões não surgiu do intelecto da ufologia, nem da Nova Era. Ao contrário, é parte integrante da física do século xx. Desde a relatividade geral de Einstein, um truísmo da cosmologia é que o espaço-tempo se dobra ou curva através de outra dimensão física. A teoria de Kaluza-Klein postula um universo de onze dimensões. Mack apresenta uma idéia inteiramente científica como a chave para “fenômenos” que estão fora do alcance da ciência.

Temos uma noção do que aconteceria a um objeto de outra dimensão que encontrasse o nosso universo tridimensional. Por motivos de clareza, vamos diminuir uma dimensão: ao passar por um plano, uma maçã deve mudar a forma como será percebida pelos seres bidimensionais confinados no plano. Primeiro, parece ser um ponto, depois aparecem cortes transversais maiores da maçã, em seguida cortes transversais menores, um ponto mais uma vez – e finalmente, puf!, desaparece. De modo análogo, um objeto de quarta dimensão ou de uma dimensão ainda superior – desde que não seja uma figura muito simples, como um hipercilindro passando pelas três dimensões ao longo de seu eixo – terá sua geometria tremendamente alterada, à medida que o virmos passar pelo nosso universo. Se fosse sistematicamente relatado que os alienígenas mudam de forma, eu poderia pelo menos entender por que Mack persegue a noção da origem em outras dimensões. (Outro problema é tentar compreender o que significa o cruzamento genético entre um ser tridimensional e um quadridimensional. Os filhos pertencerão à 3, 5ª dimensão?)

Quando fala sobre seres de outras dimensões, o que Mack realmente quer dizer é que – apesar de seus pacientes às vezes descreverem as suas experiências como sonhos e alucinações – não tem a menor idéia do que eles sejam. Mas, reveladoramente, quando tenta descrevê-los, ele procura a física e a matemática. Ele quer as duas coisas – a linguagem e a credibilidade da ciência, mas sem ficar limitado pelo seu método e suas regras. Parece não compreender que a credibilidade é conseqüência do método.

O principal desafio proposto pelos casos de Mack é a velha questão acerca de como ensinar o pensamento crítico de forma mais difundida e mais profunda numa sociedade – que inclui até, concebivelmente, professores de psiquiatria de Harvard – inundada de credulidade. A idéia de que o pensamento crítico é a última moda no Ocidente é tola. Se compramos um carro usado em Cingapura ou Bangcoc – ou uma quadriga na antiga Susa ou Roma –, temos que tomar as mesmas precauções que tomaríamos em Cambridge, Massachusetts.

Quando compramos um carro usado, pode ser muito grande a nossa vontade de acreditar no que o vendedor está dizendo: “Um veículo tão maravilhoso por tão pouco dinheiro!”. E, de qualquer maneira, dá bastante trabalho ser cético; temos de saber alguma coisa sobre carros, e é desagradável fazer com que o vendedor se zangue conosco. Apesar de tudo isso, entretanto, reconhecemos que o vendedor poderia ter motivos para ocultar a verdade, e sabemos de histórias de outras pessoas que, em situações semelhantes, foram enganadas. Por isso, damos chutes nos pneus, olhamos embaixo do capô, damos uma volta de teste, fazemos perguntas minuciosas. Podemos até levar junto conosco um amigo com talento para mecânica. Sabemos que é necessário algum ceticismo, e compreendemos a razão. Em geral, há pelo menos um pequeno grau de confronto hostil em toda compra de carro usado, e ninguém afirma que é uma experiência especialmente animadora. Mas se não exercemos uma dose mínima de ceticismo, se temos uma credulidade sem limites, teremos de pagar por isso mais tarde. Então nos arrependeremos de não nos termos investido desde o início de um pouco de ceticismo.

Muitas casas na América do Norte têm hoje em dia sistemas modernamente sofisticados de alarme contra ladrões, inclusive sensores infravermelhos e câmaras acionadas por movimento. Um autêntico videoteipe, com indicação de hora e data, que mostrasse uma incursão alienígena – especialmente quando eles se introduzem através das paredes – seria uma evidência muito boa. Se milhões de norte-americanos foram seqüestrados, não é estranho que nenhum morasse numa casa dessas?

Algumas mulheres, segundo se diz, são engravidadas por ETs ou por esperma deles; os fetos são então removidos pelos alienígenas. Inúmeros casos desse tipo são citados. Não é estranho que nada anômalo tenha sido percebido nas ultra-sonografias rotineiras desses fetos, ou na amniocentese, nem que nunca tenha ocorrido um aborto natural revelando um ser alienígena híbrido? Ou os médicos são tão estúpidos que olham negligentemente para o feto meio humano, meio alienígena e vão atender a próxima paciente? Uma epidemia de fetos desaparecidos é algo que certamente causaria sensação entre os ginecologistas, as parteiras, as enfermeiras obstétricas – sobretudo numa era de intensa consciência feminista. Mas não temos nem um único registro médico que comprove essas afirmações.

Alguns ufologistas consideram revelador o fato de algumas mulheres que afirmam não ter vida sexual ativa engravidarem, e atribuem seu estado à fecundação alienígena. Um bom número dessas pessoas parece ser de adolescentes. Tomar as suas histórias ao pé da letra não é a única opção possível para o investigador sério. Compreendemos, certamente, que, na angústia de uma gravidez indesejada, uma adolescente que vive numa sociedade inundada por relatos de visitas de alienígenas poderia inventar essa história. Nesse caso, há também possíveis antecedentes religiosos.

Alguns seqüestrados dizem que implantes minúsculos, talvez metálicos, foram inseridos em seus corpos – bem no fundo de suas narinas, por exemplo. Esses implantes, é o que nos informam os terapeutas que tratam de rapto por alienígenas, às vezes caem acidentalmente, mas, “exceto em alguns poucos casos, o artefato se perdeu ou foi jogado fora”. Esses seqüestrados parecem espantosamente desprovidos de curiosidade. Um objeto estranho – possivelmente um transmissor que envia dados obtidos por telemetria sobre o estado do corpo da vítima a uma espaçonave alienígena em algum lugar acima da Terra – cai do nariz; ele o examina negligentemente e depois o joga no lixo. Somos informados de que histórias como essa acontecem na maioria dos casos de rapto.

Alguns desses “implantes” foram apresentados ao público e examinados por especialistas. Nenhum foi confirmado como artefato de fabricação extraterrestre. Nenhum dos componentes é feito de isótopos inusitados, apesar do fato conhecido de que as outras estrelas e os outros mundos são constituídos de proporções isotópicas diferentes das existentes na Terra. Não há metais da “ilha de estabilidade” transuraniana, onde os físicos acham que deve existir uma nova família de elementos químicos não radioativos desconhecidos na Terra.

O melhor caso para os entusiastas do rapto foi o de Richard Price, que afirma ter sido seqüestrado aos oito anos por alienígenas que implantaram um pequeno artefato em seu pênis. Um quarto de século mais tarde, um médico confirmou a presença de um “corpo estranho” ali encravado. Depois de mais oito anos, o artefato caiu. Tendo aproximadamente um milímetro de diâmetro e quatro de comprimento, foi cuidadosamente examinado por cientistas do MIT e do Hospital Geral de Massachusetts. A sua conclusão? Colágeno formado pelo corpo em locais de inflamação e fibras de algodão das cuecas de Price.

Em 28 de agosto de 1995, as estações de televisão de Rupert Murdoch apresentaram o que pretendia ser a autópsia de um alienígena morto, filmada em dezesseis milímetros. Alguns patologistas com máscaras e trajes clássicos de proteção contra a radiação (com aberturas de vidro retangulares para os olhos) cortavam uma figura de olhos grandes e doze dedos, e examinavam os órgãos internos. Embora o filme ficasse às vezes fora de foco, e a visão do cadáver fosse freqüentemente bloqueada pelos seres humanos que se apinhavam ao seu redor, alguns espectadores acharam o efeito deprimente. O Times de Londres, também de Murdoch, não soube o que dizer do filme, embora citasse a opinião de um patologista de que a autópsia fora executada com uma pressa imprópria e irrealista (ideal, entretanto, para a televisão). Dizia-se que a autópsia fora filmada no Novo México, em 1947, por um participante, agora na faixa dos oitenta, que desejava manter-se anônimo. O ponto decisivo parecia ser a notícia de que a guia do filme (seus primeiros centímetros) continha informações codificadas que a Kodak, fabricante da película, dizia ser de 1947. No entanto, veio a se saber que não se apresentou à Kodak todo o filme, apenas a guia cortada. Pelo que sabemos, esta podia ter sido tirada de um cine-jornal de 1947, tirado dos arquivos abundantes na América do Norte, e a “autópsia” encenada e filmada em separado e em época mais recente. Há certamente uma pegada de dragão – mas é falsificável. Se for um embuste, como acho bem provável, não requer muito mais inteligência do que os círculos nas plantações e o documento MJ-12.

Em nenhuma dessas histórias, não existe nada que indique com bastante força a origem extraterrestre. Não há certamente a descoberta de máquinas engenhosas que estejam muito além da tecnologia atual. Nenhum seqüestrado surrupiou uma página do diário de bordo do capitão, um instrumento de exame, nem tirou uma fotografia autêntica do interior da nave, nem retomou com informações detalhadas e verificáveis até então inexistentes na Terra. Por que não? Essas falhas devem ter um significado.

Páginas: 1 2 3 4 5

Deixe um comentário